
Na
luta contra o câncer, pesquisador anuncia que resina
contém dezenas de vezes mais flavonóides do que vegetais.
(Jornal da UNICAMP)
Ultimamente,
pesquisadores do exterior não vêm dando paz ao professor
Yong Kun Park. Aposentando, mas incapaz de abandonar as atividades na Faculdade
de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, ele ganhou notoriedade
e prêmios internacionais com pesquisas sobre a própolis brasileira.
Park e seus orientados colheram amostras de variados tipos de própolis
por quase todo o país (falta a Amazônia, onde já trabalham)
e descobriram nelas importantes propriedades anticancerígenas e anti-HIV.
Os extratos obtidos motivam pesquisas em centros avançados como Japão
e Estados Unidos, na busca por medicamentos que eliminem nos doentes a desesperança.
O assédio a Yong Park começou em junho
deste ano, quando ele viajou a Kobe para conferir de perto os resultados relativos
à concentração de flavonóides nas amostras de
própolis que enviara a colegas japoneses. "A própolis possui
dezenas de vezes mais flavonóides do que qualquer vegetal", festeja
o professor . A festa
se justifica. O flavonóide é um composto fenólico presente
nos vegetais e, desde
o início dos anos 1990, estuda-se mundialmente a sua eficácia
no combate a um perigoso invasor do corpo humano: a dioxina, produzida na
degradação de produtos contendo cloro, como plásticos
e herbicidas.
A
dioxina contamina o solo, a água e os vegetais, sendo absorvida pelos
animais
e, na ponta desta cadeia alimentar , invade as células humanas levando
à formação de substâncias cancerígenas.
Por isso, ganhou o nome de hormônio ambiental.
Está associado a cânceres de pulmão, cérebro e
próstata. "Dentro do corpo
se produz o hormônio endócrino, que entra na célula denominada
"receptor" e envia sinais ao núcleo, estimulando o gene a
formar compostos necessários para nossa fisiologia. Estamos, então,
sobrevivendo. O problema é que a dioxina ocupa o lugar por onde entraria
o hormônio endócrino. A ingestão de flavonóides
combate essa invasão, porque eles deslocam a dioxina do receptor ,
ocupando a mesma posição
na célula", ensina o professor.
Universidades
como a de Kobe realizam estudos para supressão do hormônio ambiental
há pelo menos dez anos. No Brasil, nada se fez, e os flavonóides
da própolis nem provocaram eco. "Já os países desenvolvidos
me procuram a toda
hora. Estou voltando de uma viagem com os japoneses pelo Nordeste e à
Carolina
do Norte", revela. Os norte-americanos, igualmente atentos, já
sugeriram a Park
que redirecionasse o trabalho para a inibição do vírus
da Aids. "Se a própolis e seus flavonóides comprovarem
eficácia contra o HIV, os pesquisadores envolvidos ganham o Prêmio
Nobel", brinca. Brincadeira, mas nem tanto. Instigado, o professor admite
que as pesquisas com a própolis, em seu conjunto, não estão
tão longe de cumprir
requisitos para a premiação.
Trajetória
- A postura humilde e o espírito risonho dos orientais se acentuam
quando Yong Park é convidado a falar da vida pessoal. Recusa-se, gentilmente.
A professora Gláucia Pastore, que convive com ele há tempos
na FEA, não titubeia: "O professor Park é a maior autoridade
mundial em própolis. Para medir a importância de sua linha de
trabalho, basta dizer que a própolis, assim como outros vegetais, possuem
componentes capazes de reduzir a poluição ambienta que
o próprio indivíduo carrega e que pode levar a doenças
degenerativas. A dioxina, no caso, é o grande inimigo oculto nas águas
e solos das cidades industrializadas".
É a professora, também, quem repassa a
trajetória de Yong Park. Nascido na Coréia do Norte, desceu
para Seul e formou-se em medicina. Nos tempos da guerra da Coréia,
migrou para o Japão, onde estudou por alguns anos, até cruzar
o mundo
e tornar-se um dos principais patologias das forças armadas americanas.
"Mas ele queria propostas novas, nos Estados Unidos seria apenas mais
um médico. O Brasil despontava como promessa e o professor veio para
o Ital. A convite de Zeferino Vaz, criou na Unicamp a área de bioquímica
de alimentos. Nesta área, tudo o que existe no país veio depois
dele", afirma.
O
enxame Yong Park guarda na memória as cenas de "O Enxame",
de 1978, que enterrou a carreira do produtor de filmes-catástrofe Irwin
Allen, depois dos sucessos de "O Destino de Posseidon" e "Inferno
na Torre". "A invasão dos Estados Unidos por abelhas africanas
é muita fantasiosa, mas comecei a me interessar por própolis",
conta. A verdade, na trama, é que tudo começou no Brasil. O
pesquisador Warwick Estevan Kerr , considerando baixa a produção
de mel pela abelha Apis mellifera, européia, resolveu cruzá-la
com uma espécie africana, a mortífera Apis mellifera scutellata.
Alguém retirou a malha de proteção e trinta abelhas escaparam,
enxameando e se espalhando pelas Américas, fazendo vítimas fatais.
Daí, o filme.
Kerr levou a culpa pelo acidente, mas conseguiu o cruzamento
com as abelhas que restaram e fez nascer a Apis mellifera africanizada. Ele
e Yong Park viriam a se conhecer e trocar idéias posteriormente. No
Sul, o professor da FEA desenvolveu uma pesquisa comparativa em campo, constatando
que a abelha africanizada
é muito mais eficiente do que a européia na produção
de própolis. Este trabalho foi publicado no Japão e alavancou
a trajetória de Park na área de biotecnologia voltada à
própolis e outros alimentos funcionais. Kerr, por seu lado, ganhou
o respeito dos apicultores brasileiros ao multiplicar por dez a produção
de mel.
O Truque das Abelhas
O
professor Yong Park explica que os vegetais, no estágio de brotos,
estão vulneráveis a microorganismos e insetos; para se proteger
, produzem enzimas que funcionam como os anticorpos nos humanos. A colméia,
que guarda o néctar das plantas, ficaria igualmente vulnerável
a invasores. Ocorre que as abelhas aprenderam
a coletar as enzimas que protegem os vegetais, fechando com elas a parte externa
das colméias. "Países europeus, principalmente do leste,
há dois mil anos usam a resina das colméias para tratar de doenças
infecciosas", conta.
Hoje estão confirmadas as propriedades antiinflamatórias,
antimicrobianas, antioxidantes e anticancerígenas da própolis.
O detalhe é que não existe apenas
um tipo de própolis, como se pensava. Estados Unidos e Europa pensavam
assim porquepossuem climas temperados, em que maioria dos vegetais é
visitada pela abelha da espécie "álamo", sendo esta
a resina predominante. “No Brasil, com a maior biodiversidade do planeta
e seu clima tropical ou subtropical, encontramos variados tipos de própolis,
conforme a origem botânica, e todos com atividades farmacológicas
diferentes", acrescenta Yong Park.
Em 1994, o professor apresentou o trabalho de sua equipe
na Europa e Japão, classificando 12 grupos de própolis, divididos
conforme a concentração de compostos químicos. Era fruto
da avaliação de 500 amostras coletadas nas regiões Sul,
Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Testes nos EUA, comprovando propriedades
citotóxicas, anti-HIV e anti-cárie nas amostras, foram repercutidos
por publicações científicas e pela mídia.
Yong Park orgulha-se de ver seu orientado Michel Koo
contratado pela Universidade de Rochester , com seu próprio laboratório
e equipe. Michel Koo vem aprofundando as pesquisas que iniciou na Unicamp
sobre a ação de compostos da própolis contra a enzima
da bactéria Streptococcus mutans, que provoca a cárie. Na Universidade
da Carolina do Norte, testes de atividade citotóxica indicaram uma
variação de 14%
a 97% na inibição do crescimento de células cancerígenas,
notadamente as de mama, intestino, naso-faringe e renal. Quanto à atividade
anti-HIV, são promissores os resultados obtidos com os grupos 1 e 5,
da região Sul, segundo os testes na Biotech Research Laboratories.
O caminho Mas Yong Park não pensa apenas em
própolis. Adverte que o mundo já tomou outro rumo e que o Brasil
depende da exploração sustentável de sua rica biodiversidade
para sobreviver . Para isso, deve investir na biotecnologia voltada para produtos
naturais. "Estados Unidos e Europa sempre usaram medicamentos gerados
da síntese química, mas hoje recorrem cada vez mais a produtos
naturais com atividades farmacológicas. No ramo de ingredientes e alimentos
funcionais, o mercado mundial movimentou 20 bilhões de dólares
em 2000,
e a cifra deve triplicar até 2010", informa.
Trata-se de um alerta de cientista, pois negócios
não fazem parte da vida de Yong Park, que vira e mexe recusa convites
de empresários para trabalhar em pesquisas com própolis visando
à exportação. Quando um colega americano insistiu empatentear
uma amostra de própolis capaz de inibir o vírus da Aids, Park
rompeu relações e publicou o trabalho para a comunidade científica:
"Não sou comerciante, sou professor
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